sexta-feira, 6 de abril de 2012
PACIÊNCIA E DOÇURA, O CAMINHO DA CRUZ
"Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado. Os soldados conduziram-no ao interior do pátio, isto é, ao pretório, onde convocaram toda a coorte.Vestiram Jesus de púrpura, teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na sua cabeça.E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus! Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo. Depois de terem escarnecido dele, tiraram-lhe a púrpura, deram-lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar". (São Marcos 15:15-20)
Sempre ensinamento e exemplo dados aos homens. Nos ultrajes que Jesus suportou, na paciência e na resignação com que tudo sofreu se vos depara a linha de proceder que deveis seguir.
Não vos enfileireis nunca entre os que acusam e insultam, qualquer que seja a aparência de direito que tenham para assim fazer, porquanto podeis estar cegos e acusar e insultar a um inocente. Fracos são os sentidos humanos e vos enganam muitas vezes. Este, que vos parece culpado e o é para os homens, pode ser justo aos olhos de Deus. Abstende-vos, pois, visto que, na maioria dos casos, por demais fracos são os vossos sentidos e obtusa a vossa inteligência para julgardes com acerto.
Se vos virdes alvo da zombaria, do escárnio dos vossos irmãos, por mais injustas que sejam suas opiniões e seus atos a vosso respeito, oponde-lhes sempre a paciência e a doçura.
Não vos esforceis por demonstrar aos cegos os princípios e as propriedades da luz. Perdereis o vosso tempo.
Firmai-vos na pureza das vossas intenções, na pureza da vossa consciência e dos vossos atos e ficai certos de que tereis sempre no Senhor um juiz equânime.
(ROUSTAING, J.-B. "Os Quatro Evangelhos", FEB, Rio de Janeiro)
Comentário: Não é nada fácil retermos nossa língua, nossos julgamentos apressados e responder com paciência e doçura à zombaria e o escárnio de alguns, de muitos ou da sociedade. Contamos com a ajuda d'Ele nesse sentido.
As diversas correntes da tradição cristã falam: "creia em Jesus e serás salvo". Sim, mas a maior prova de crer é viver como Jesus viveu!
Precisamos resgatar nesses últimos tempos a imitação de Cristo, o Seu exemplo como balizador das nossas ações nesse mundo. Tal é o desafio existencial que temos pela frente.
Tenham tod@s uma ótima e reflexiva Sexta-feira da Paixão.
Paz e Bem!
MARCIO S. SARAIVA
segunda-feira, 12 de março de 2012
QUAL É A SUA RELIGIÃO?
![]() |
| Minha fonte de inspiração teológica |
Faz pouco
tempo que, numa entrevista para vaga de professor num colégio do Rio de Janeiro
me deparei com essa pergunta cortante e direta: “Qual é sua religião?”.
Fiquei
desconcertado. As palavras me faltaram. Gaguejei e tentei pensar rapidamente em
como responder com segurança algo que para mim é complexo. Creio que fui tão
estabanado que esse deve ter sido um dos motivos que a coordenadora não me
chamou mais, ainda que elogiasse o meu currículo.
Começo
sempre dizendo que sou cristão, mas até aí, sei que é muito relativo. Muitos se
dizem cristãos. Os católicos, os ortodoxos, os protestantes, os pentecostais e
sua variante neopentecostal (a teologia da prosperidade me parece um desvio
diabólico, mas procuro respeitar aqueles e aquelas que seguem esse rumo). Alguns
esotéricos e os kardecistas também se colocam como cristãos, pois todos esses reivindicam
o Novo Testamento de Jesus Cristo como base de sua fé pessoal-comunitária.
Estudei
teologia básica na PUC-Rio durante dois anos e lá aprendi demais com os
teólogos católicos a admirar a beleza e as reflexões da velha e tradicional
Igreja de Roma, isso no momento em que minha vida religiosa já tinha alguns
anos de vínculo com a tradição e a teologia liberal da Igreja Anglicana e,
depois, na pequena e querida Igreja Presbiteriana de Guadalupe dirigida pelo
reverendo Carlos Antônio, homem de Deus e de uma simplicidade encantadora.
| Igreja Presbiteriana Unida |
Durante
algum tempo, ajudei no Conselho de Pastores da Igreja Presbiteriana Bethesda em
Copacabana, filiada a IPU (Igreja Presbiteriana Unida), e aprendi com meu
querido reverendo Nehemias Marien, hoje lá no andar de cima, que kardecismo e
cristianismo podem conviver de forma harmoniosa, sem perseguições e nem mútua
acusações. As pregações e conversas particulares com Nehemias me trouxeram
enormes meditações sobre o sentido último de nossa existência. A equipe se
completava com os reverendos Jonas Rezende e Rubens Pires, eu me sentia uma
anão espiritual perto desses homens.
Ainda na minha
adolescência, cresci numa família de catolicismo sincrético e conheci alguns
centros kardecistas e pessoas verdadeiramente dedicadas ao processo de
santificação com Cristo (eles chamam de “reforma íntima”). Esses exemplos me
deixaram marcas profundas de respeito e admiração pela filosofia espírita e por
aquilo que ela traz para a vida de muitas pessoas: consolo, paz interior e
mudanças de atitudes. Em especial, destaco o "Grêmio Espírita Nazareno" e o "Centro Espírita Deus, Luz e Verdade".
Dancei nas
giras de Umbanda e percebi o quanto esse povo sofre um preconceito estúpido.
Quanta gente de bem e devotada ao próximo lá conheci. Não esquecerei jamais dos
“Caminheiros de Oxalá” e da FEPAL, nem das orientações do livro “Umbanda cristã
e brasileira”.
Na infância,
invejava a família de Dona Maria (chamávamos de Tia Maria de Quintino). Era uma
casa adventista, no Morro da Caixa d’Água, que seguia com rigor e muito amor os
preceitos que me faziam desejar no futuro uma família assim também. Ela me
mostrou que é possível criar uma família honrada e com fé, mesmo num contexto
de degradação social, econômica e cultural. Seus filhos e filhas são hoje
pessoas de bem, nenhum se tornou bandido ou traficante.
Qual é a
minha religião?
Sei hoje que
o amor e o bem não têm fronteiras pessoais e nem religiosas. Conheci “santos” e
canalhas em todas essas religiões.
![]() |
| Estudar e orar com a Bíblia, uma benção! |
Tenho em
Jesus Cristo meu Senhor, Salvador e Mestre e pela Bíblia uma paixão sem igual. Nesse sentido, sou muito cristocêntrico, mas sem fanatismo ou bibliolatria superficial.
Identifico-me mais com o “princípio protestante” de livre exame das Escrituras
do que com a rigidez dogmática católica e excessos de imagens, o que não me
impede de apreciar a excelência de muitos dos seus teólogos e nem de orar em
seus belíssimos templos. Vez por outra, participo de uma missa, sem
constrangimentos, e sinto Deus ali presente. A liturgia cuidadosa, suas velas e o cheiro do incenso queimando me fascinam.
Sou avesso
ao fanatismo, ao fundamentalismo e ao biblicismo cego que infestou muitas
igrejas de raiz protestante no Brasil e sinto-me incomodado demais com isso,
pois vejo beleza nas mensagens de outras religiões, sinto elementos de grande
verdade em textos de Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco e José Raul Teixeira –
para citar três grandes expoentes da literatura espírita kardecista – sem com
isso dizer “amém” para todas as linhas que os mesmos escrevem ou escreveram.
| Chico Xavier, líder do espiritismo brasileiro |
A liturgia
tradicional das igrejas protestantes me encantam. Seus belíssimos hinos – sem gritarias
emocionais! – com sólidas e profundas reflexões bíblicas (na linha de Calvino,
Barth e Tillich, para citar alguns), sem idolatrias ou “papas”, deixam-me em
grande paz e favorece minha comunhão com o sagrado, meu êxtase espiritual, sem jamais
negar que há outras maneiras de experienciar esse mesmo sagrado, pois o
espírito do Senhor é livre e sopra onde quer.
Não posso me
dizer católico e nem ortodoxo, ainda que eu aprecie muitas obras de autores
dessas igrejas e sua maravilhosa tradição contemplativa. Também sinto paz em muitos textos espíritas kardecistas, mas minha
teologia estaria mais próxima do protestantismo de um Karl Barth e Paul Tillich
do que do positivismo racionalista evolucionista de Allan Kardec, ainda que eu tenha no Espiritismo um grande referencial, especialmente na linha desenvolvida por J.-B. Roustaing, Pietro Ubaldi e Carlos Torres Pastorino.
Tenho horror
ao neopuritanismo e sua ênfase numa
santidade de fachada, exterior, comportamental apenas, sem valorizar a
experiência de Deus no coração humano. Parece, em muitas denominações atuais – especialmente
pentecostais e neopentecostais – que ser cristão é apenas não usar bebidas alcoólicas,
não fumar, ser heterossexual e evitar sexo fora da instituição do casamento. Um
budista pode fazer isso melhor e ainda assim não será cristão. Além do mais, a
salvação nas Escrituras é obra da graça de Deus e da fé ou seria simplesmente
um conjunto de obras humanas que “conquistam” os favores de Deus?
Não defendo
nenhum sincretismo. “Cada macaco no seu galho” diz o ditado popular. Penso sim
que o pluralismo religioso é um valor democrático saudável demais. Aprendi a
respeitar as diferenças e conviver com elas, retendo tudo que for bom.
| Igreja Anglicana |
Um grande
amigo me disse: “você continua pensando como um bom anglicano”. Pode até ser. Realmente,
essa flexibilidade mental e teológica é bem a marca dos anglicanos do século
21. O fato é que busco sempre caminhar com todos os meus irmãos de humanidade,
crescendo cada dia mais como ser humano e compreendendo que todos nós somos
sempre falhos e pecadores, carentes do amor e do perdão divinos.
A minha
teologia pode ser inconsistente e heterodoxa para muitos que conheço (uma
teologia fechada e amarradinha sempre tem descambado em autoritarismo e
agressividade), mas ela está aberta para o novo, para o amor e para as boas
novas do Reino de Deus. Não preciso excluir e nem desmerecer outros caminhos de
fé para demonstrar a beleza do Cristo e do seu Evangelho de amor e graça. Com isso, sinto a presença do Espírito Santo - ou dos Espíritos de Luz, Anjos do Senhor - em diversos momentos de minha vida.
Assumo minha
inconsistência, minhas dúvidas, o quanto eu sou débil em questões de fé. Conto
apenas com a misericórdia de Deus e com Seu Espírito para me direcionar dentro
do amor, do perdão e da caridade. Prefiro ser assim a “ter aquela velha opinião
formada sobre tudo”. Pessoas chatas sabem tudo, ou melhor, pensam que sabem. A
maioria das igrejas de hoje estão cheias de pessoas chatas. Onde eu poderia
congregar com meus irmãos e minhas irmãs?
Vou caminhando, como pastor errante e sem ovelhas, nos braços de nosso bondoso Deus.
Vou caminhando, como pastor errante e sem ovelhas, nos braços de nosso bondoso Deus.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
REENCARNAÇÃO X GRAÇA DIVINA?
Com o passar do tempo, vim a compreender que tinha uma visão muito empobrecida da graça de Deus. Questões sobre como se "salvariam" aqueles aos quais jamais foi anunciado o Evangelho de Cristo (ou da Igreja) permaneciam em aberto. Também em relação aos israelitas que viveram antes de Jesus nascer pairava outra dúvida já que eles desconheciam o salvador e tinham uma concepção messiânica distinta do que consta na doutrina baseada no cânon oficial do Novo Testamento.
Ora, mas será que Deus seria capaz de mandar a alma de uma pessoa para o "inferno", destinando-a sofrer eternamente, só porque ela não escutou o discurso salvífico de um crente ou deixou de compreender a mensagem que lhe foi pregada a ponto de ir à frente da congregação quando o pastor fez o apelo no fim do culto? Que divindade sádica e injusta seria esta inventada pelos cristãos fundamentalistas que condenaria a própria criação pra assar num lago de chamas?!
Felizmente a própria vida e a realidade complexa das coisas vieram a me ensinar sobre o quanto a graça divina é rica para com todos, indo muito além da nossa compreensão restrita. Pois tal graça opera independentemente da ação ministerial daqueles que se consideram portadores das boas notícias salvíficas e alcança a todos os seres na condição em que cada um se encontra. E aí pouco importam as nossas convicções pessoais sobre a Divindade ou qual o conjunto de crenças de cada indivíduo.
Neste sentido, hoje admito não só a salvação dos reencarnacionistas como também penso que eles estão debaixo da cobertura da graça de Deus. Nem mesmo aqueles que seguem a corrente científica da conscienciologia fundada pelo médico Waldo Vieira e que negam a religião, baseando-se em estudos sobre o parapsiquismo e aplicando às suas pesquisas aquilo que chamam de "princípio da descrença".
Admitindo como mera hipótese a reencarnação, apenas para fins de raciocínio e reflexões, pergunto se, neste caso, uma Inteligência Superior não estaria por trás de todo o sistema existencial crido pelos espíritas e outras inúmeras tradições religiosas do planeta?
Pois, se as pessoas normalmente nascem, crescem, reproduzem, envelhecem, morrem e depois retornariam renascendo em outro corpo, quem estaria regendo todo este ciclo acima da vontade pessoal de cada um?
Como conceber a existência de um sistema que seria anterior ao homem sem admitir a existência de Deus?
Outrossim, por mais que muitos tentem negar, eu vejo a operação da graça dentro da visão reencarnacionista e que jamais seria anulada pelo carma. Porque mesmo que a consciência desencarnada precise retornar à Terra para poder evoluir, tentar reparar o mal que fez ao outro na vida passada ou então simplesmente compreender mais um pouco sobre si mesma, estaria a graça ausente?
E aí, se pensarmos bem, Deus, na visão de muitos espíritas, torna-se até mais gracioso do que nas palavras arrogantes de certos pastores evangélicos que tentam fazer do Evangelho uma coação baseando-se em partes da Bíblia para que seus ouvintes "aceitem Jesus":
"Céu ou inferno? Onde você vai querer passar o resto da eternidade?"
Todavia, tenho uma questão que vai contra o que a maioria dos evangélicos fala e também em relação ao que vários espíritas dizem de outra maneira. Entre estes, há quem afirme ser a Terra um lugar de sofrimentos, pelo que nós estaríamos aqui porque precisaríamos sofrer o carma de vidas passadas. E, por sua vez, tem predominado no meio evangélico a noção de que o mundo em breve vai acabar e só nos restaria esperar por uma nova Terra. Só que eu sou radicalmente contra estes pensamentos, pois são concepções que não buscam considerar o lado bom da vida aqui no presente e projetam a felicidade humana para um momento futuro.
É nessas horas que o Evangelho do Reino de Deus cai como uma luva para as nossas necessidades verdadeiras afim de convocar a humanidade inteira para que transforme a triste realidade na qual ela se encontra hoje. O Evangelho que considera a graça nos seus múltiplos aspectos busca é dialogar com cada religião e cultura diferente afim de instigar uma transformação social unida à espiritualidade, confirmando aquela frase da criação que, com frequência, é repetida no capítulo 1 de Gênesis:
"Deus viu que isso era bom".
Para abraçar o Evangelho do Reino não é preciso tornar-se cristão e nem aceitar um conjunto de crenças religiosas [a isso Karl Rahner chamava de "cristãos anônimos"]. Até a Bíblia torna-se dispensável por mais que ela contenha valiosíssimos ensinamentos. Porque basta que o homem compreenda a importância de contribuir para a transformação do planeta e encontre dentro de si mesmo a paz, sabendo que é amado por Deus incondicionalmente, sem precisar dar nada em troca. Nem mesmo a sua fé Nele.
Concluindo, se existe reencarnação ou não, trata-se de um mistério que pouco deve nos importar. Por alguma razão maior a fisicalidade oculta do homem, os caminhos pelos quais percorre a alma - ainda que alguns tenham suas experiências subjetivas do mundo espiritual por meio de fenômenos paranormais - ainda tem muito mistério. Porém creio que basta a revelação da instrução divina para que a ponhamos em prática e assim estejamos bem aqui, sendo que é nesta vida que precisaremos tomar atitudes aprendendo a ser felizes em harmonia com o bem estar do próximo.
Que a graça de Deus seja com todos!
Autor: Rodrigo P. A. da Luz
Fonte: doutorrodrigoluz.blogspot.com
Observações: Como lido acima, o texto não é meu, mas entendo que a Graça de Deus se manifesta de forma abundante na hipótese do reencarnacionismo, contrariando a visão ortodoxa das Escrituras. Afinal, uma nova oportunidade para reparar, aprender e crescer no caminho de volta para a Casa do Pai será sempre um presente, uma graça de um Deus infinitamente bondoso.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
MEDO DA MORTE OU MEDO DA VIDA
"Ora, Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos; porque para ele todos vivem".(Lucas 20:38)
O medo da morte nos impede de viver a plenitude do presente da vida e a ela darmos graças todos os dias.
Alexander Lowen, terapeuta reichiano, dizia em sua obra "Medo da Vida" que no mais profundo quadro de medo de viver existe o medo de morrer. Parece que quando estamos felizes, vivos, alegres, alguma coisa ruim vai acontecer. "A alegria de pobre dura pouco" diz o provérbio popular. Com isso, deixamos de usufruir a graça de Deus no presente e nos tornamos pessoas neuróticas, tensas, ressabiadas, sempre esperando algo sinistro ou guardando dinheiro "para quando adoecer".
No Cristianismo tradicional (católico, ortodoxo e protestante), podemos beber das Escrituras Sagradas o testemunho da vitória da Vida sobre as forças demoníacas da morte. Aquele que tem fé não teme a morte e, se necessário for, entrega-se a ela na esperança da "ressurreição", convicto de que a morte não é a última palavra. Ainda assim, o mais comum é conhecermos cristãos que tem horror só em pensar na morte. Incoerências da fé.
O materialismo, a indiferença, o consumismo doentio e toda uma cultura ocidental de hiper-valorização das formas corporais vem trazendo um novo tipo de apego ao corpo, a matéria, a vida aqui-agora, a juventude eterna (vejamos as inúmeras cirurgias plásticas) etc. A velhice, as dores e sofrimentos comuns à existência humana, os funerais, os velórios, enfim, tudo que lembra a morte está sendo banido da vida comum. O problema é que quanto mais expulsamos a morte, mais ela retorna, pela porta dos fundos, como um fantasma para nos assombrar. O retorno do recalcado (Lacan) é mais doloroso ainda.
Ramatís, no livro "A sobrevivência do Espírito", faz uma comparação interessante entre a cultura ocidental e oriental, generalizando:
"Certos povos orientais têm pouco apego à vida física, em comparação com os da civilização materialista da Ocidente que, em sua aparência religiosa, oscila num contínuo misto de descrença e temor, sem força suficiente para sobreviver ao medo da morte. Devido à facilidade intuitiva com que os povos asiáticos admitem a sobrevivência da alma e a reencarnação, atribuem pouco valor à vida corporal e quase não temem a morte. Daí a existência do haraquiri, suicídio muito comum no Oriente e dependente da psicologia desse povo, que mais o pratica como um desagravo de tradição secular do que mesmo como ato de rebeldia para com a vida física. A convicção da imortalidade e da reencarnação do espírito enfraquece o tradicional pavor da morte, como sucede com os espíritos estudiosos, que já não pranteiam tão escandalosamente a desencarnação da sua parentela, o que ainda é muito comum entre os religiosos dogmáticos e assustados pelas proibições infantis do sacerdócio sentencioso. A doutrina espírita muito contribui para um conhecimento mais valioso da criatura a respeito do valor da vida, e as estatísticas já comprovam que é inexistente a prática do suicídio por parte do espírita conscientemente convicto de sua realidade imortal. (...) Os cristãos [primitivos] morriam nos circos romanos de modo imperturbável, porque não acreditavam na morte da alma".
Nós, ocidentais, ainda vivemos apavorados pela idéia da morte, da decrepitude, pois não temos uma fé que aponte para a vida além da vida, para a valorização do prazer e da alegria (em tudo dando graças!), sem neuroses quanto a inevitabilidade da morte. O materialismo ateu pode nos acarretar um processo neurótico de evitação da morte que acaba nos embaraçando a própria vida aqui. E quando falo em materialismo ateu, estou incluindo muitos que teoricamente dizem ter fé, mas na prática, apavoram-se diante de uma mínima lembrança de morte ou fim existencial.
Penso que se faz urgente um grande trabalho de espiritualização das pessoas, não estou dizendo "conversão religiosa". Espiritualizar é se libertar do medo da morte, na convicção de que a vida é eterna e tudo que vivemos aqui faz parte de nossa bagagem milenar, pois estamos crescendo, aprendendo e avançando, alguns mais rapidamente, outros com passos vacilantes. Essa espiritualização do ser nos proporcionará uma vida menos neurótica, mais centrada no hoje e sem temores quanto ao amanhã, assumindo nossas responsabilidades diante da LEI DE DEUS que é Lei da Vida, ação e reação. Essa foi a percepção de Otília Gonçalves, no livro "Além da morte", psicografado por Divaldo Pereira Franco:
"É inadiável e urgente o trabalho de espiritualização. Essa valiosa tarefa deve começar o quanto antes, consoante o ensinamento do Senhor: “enquanto estamos no caminho”, entre os homens. As falsas concepções prendem-nos a sofrimentos que se prolongam indefinidamente, depois que o espírito abandona o fardo carnal. É imperioso o trabalho de esclarecimento de almas, vencendo os apegos perigosos que dificultam a marcha ascensional e ensinando a todos os homens que o fenômeno da morte é o mesmo fenômeno da vida".
O fenômeno da morte é o mesmo fenômeno da vida, apenas mudamos de moradia e tudo prossegue. Ao pensarmos desta maneira, temos como pano de fundo a crença bíblica de que o DEUS que cremos é um Deus de vivos e não de mortos, porque para Ele "todos vivem". Jesus Cristo está vivo, como prova de que a morte não é mais motivo para temores. Assim crendo, temos paz em nossos corações e nos reconciliamos com o Senhor da Vida. Vivamos com amor e responsabilidade, pois o amanhã pertence ao Senhor. Somente Ele sabe a nossa hora de partir.
O medo da morte nos impede de viver a plenitude do presente da vida e a ela darmos graças todos os dias.
Alexander Lowen, terapeuta reichiano, dizia em sua obra "Medo da Vida" que no mais profundo quadro de medo de viver existe o medo de morrer. Parece que quando estamos felizes, vivos, alegres, alguma coisa ruim vai acontecer. "A alegria de pobre dura pouco" diz o provérbio popular. Com isso, deixamos de usufruir a graça de Deus no presente e nos tornamos pessoas neuróticas, tensas, ressabiadas, sempre esperando algo sinistro ou guardando dinheiro "para quando adoecer".
No Cristianismo tradicional (católico, ortodoxo e protestante), podemos beber das Escrituras Sagradas o testemunho da vitória da Vida sobre as forças demoníacas da morte. Aquele que tem fé não teme a morte e, se necessário for, entrega-se a ela na esperança da "ressurreição", convicto de que a morte não é a última palavra. Ainda assim, o mais comum é conhecermos cristãos que tem horror só em pensar na morte. Incoerências da fé.
O materialismo, a indiferença, o consumismo doentio e toda uma cultura ocidental de hiper-valorização das formas corporais vem trazendo um novo tipo de apego ao corpo, a matéria, a vida aqui-agora, a juventude eterna (vejamos as inúmeras cirurgias plásticas) etc. A velhice, as dores e sofrimentos comuns à existência humana, os funerais, os velórios, enfim, tudo que lembra a morte está sendo banido da vida comum. O problema é que quanto mais expulsamos a morte, mais ela retorna, pela porta dos fundos, como um fantasma para nos assombrar. O retorno do recalcado (Lacan) é mais doloroso ainda.
Ramatís, no livro "A sobrevivência do Espírito", faz uma comparação interessante entre a cultura ocidental e oriental, generalizando:
"Certos povos orientais têm pouco apego à vida física, em comparação com os da civilização materialista da Ocidente que, em sua aparência religiosa, oscila num contínuo misto de descrença e temor, sem força suficiente para sobreviver ao medo da morte. Devido à facilidade intuitiva com que os povos asiáticos admitem a sobrevivência da alma e a reencarnação, atribuem pouco valor à vida corporal e quase não temem a morte. Daí a existência do haraquiri, suicídio muito comum no Oriente e dependente da psicologia desse povo, que mais o pratica como um desagravo de tradição secular do que mesmo como ato de rebeldia para com a vida física. A convicção da imortalidade e da reencarnação do espírito enfraquece o tradicional pavor da morte, como sucede com os espíritos estudiosos, que já não pranteiam tão escandalosamente a desencarnação da sua parentela, o que ainda é muito comum entre os religiosos dogmáticos e assustados pelas proibições infantis do sacerdócio sentencioso. A doutrina espírita muito contribui para um conhecimento mais valioso da criatura a respeito do valor da vida, e as estatísticas já comprovam que é inexistente a prática do suicídio por parte do espírita conscientemente convicto de sua realidade imortal. (...) Os cristãos [primitivos] morriam nos circos romanos de modo imperturbável, porque não acreditavam na morte da alma".
Nós, ocidentais, ainda vivemos apavorados pela idéia da morte, da decrepitude, pois não temos uma fé que aponte para a vida além da vida, para a valorização do prazer e da alegria (em tudo dando graças!), sem neuroses quanto a inevitabilidade da morte. O materialismo ateu pode nos acarretar um processo neurótico de evitação da morte que acaba nos embaraçando a própria vida aqui. E quando falo em materialismo ateu, estou incluindo muitos que teoricamente dizem ter fé, mas na prática, apavoram-se diante de uma mínima lembrança de morte ou fim existencial.
Penso que se faz urgente um grande trabalho de espiritualização das pessoas, não estou dizendo "conversão religiosa". Espiritualizar é se libertar do medo da morte, na convicção de que a vida é eterna e tudo que vivemos aqui faz parte de nossa bagagem milenar, pois estamos crescendo, aprendendo e avançando, alguns mais rapidamente, outros com passos vacilantes. Essa espiritualização do ser nos proporcionará uma vida menos neurótica, mais centrada no hoje e sem temores quanto ao amanhã, assumindo nossas responsabilidades diante da LEI DE DEUS que é Lei da Vida, ação e reação. Essa foi a percepção de Otília Gonçalves, no livro "Além da morte", psicografado por Divaldo Pereira Franco:
"É inadiável e urgente o trabalho de espiritualização. Essa valiosa tarefa deve começar o quanto antes, consoante o ensinamento do Senhor: “enquanto estamos no caminho”, entre os homens. As falsas concepções prendem-nos a sofrimentos que se prolongam indefinidamente, depois que o espírito abandona o fardo carnal. É imperioso o trabalho de esclarecimento de almas, vencendo os apegos perigosos que dificultam a marcha ascensional e ensinando a todos os homens que o fenômeno da morte é o mesmo fenômeno da vida".
O fenômeno da morte é o mesmo fenômeno da vida, apenas mudamos de moradia e tudo prossegue. Ao pensarmos desta maneira, temos como pano de fundo a crença bíblica de que o DEUS que cremos é um Deus de vivos e não de mortos, porque para Ele "todos vivem". Jesus Cristo está vivo, como prova de que a morte não é mais motivo para temores. Assim crendo, temos paz em nossos corações e nos reconciliamos com o Senhor da Vida. Vivamos com amor e responsabilidade, pois o amanhã pertence ao Senhor. Somente Ele sabe a nossa hora de partir.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
SOBRE A TAL ‘VIADAGEM’: O Evangelho de Cristo e nossas atitudes preconceituosas
Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus,
nele. (1 João 4:16)
A grande novidade da revelação
cristã esta justamente na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo que é a imagem
visível de um Deus de amor ou, melhor dizendo, de um amor que é Deus em si
mesmo. É nesse sentido que a Virgem Maria pode ser chamada de mãe de Deus
(Teothokos), pois foi a Tenda onde o santo Espirito fez Sua morada trazendo ao
mundo o Seu Cristo, o Verbo (ou Palavra) de Deus Pai.
O perdão, o amor e a misericórdia
de um Deus que veio conciliar o mundo com Ele é o que constitui a essência do
Evangelho do Cristo, a Boa Nova. Tudo mais parece periférico diante dessa
grande luz libertadora das consciências. Por isso mesmo pode João afirmar:
“Amados, amemo-nos uns aos
outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus
e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”. (1
João 4:7-8)
Esse é o ponto central. Deus é
amor. Tudo se ilumina diante dessa revelação e o Antigo Testamento é então
relido à luz desse entendimento. Foi assim que Jesus Cristo nos ensinou:
“Mestre, qual é o mais importante
de todos os mandamentos da Lei? Jesus respondeu: - "Ame o Senhor, seu
Deus, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente." Este é o
maior mandamento e o mais importante. E o segundo mais importante é parecido
com o primeiro: "Ame os outros como você ama a você mesmo." Toda a
Lei de Moisés e os ensinamentos dos Profetas se baseiam nesses dois mandamentos”.(Mateus
22:36-40)
Toda a Escritura Sagrada está
resumida no amor: manifestado por Deus e para Deus e autenticado pelo amor ao
próximo que é visível para nós.
A parábola do juízo final mostra
o ‘critério de Deus’. Diferente dos julgamentos humanos, o Senhor da Vida
coloca o amor-caridade como aquilo que diferencia os seres humanos. Assim
sendo, não e a cor da pele, etnia, nacionalidade, orientação sexual, religião,
partido político etc. que nos faz essencialmente distintos, mas as nossas
escolhas existenciais. São elas orientadas pela caridade e compaixão ou pelo
egoísmo e desamor?
“Todos os povos da terra se
reunirão diante dele, e ele separará as pessoas umas das outras, assim como o
pastor separa as ovelhas das cabras. Ele porá os bons à sua direita e os
outros, à esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
"Venham, vocês que são abençoados pelo meu Pai! Venham e recebam o Reino
que o meu Pai preparou para vocês desde a criação do mundo. Pois eu estava com
fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água. Era
estrangeiro, e me receberam na sua casa.
Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim.
Estava na cadeia, e foram me visitar."
Então os bons perguntarão:
"Senhor, quando foi que o vimos com fome e lhe demos comida ou com sede e
lhe demos água? Quando foi que vimos o senhor como estrangeiro e o recebemos na
nossa casa ou sem roupa e o vestimos? Quando foi que vimos o senhor doente ou na
cadeia e fomos visitá-lo?” - Aí o Rei
responderá: "Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quando vocês fizeram isso
ao mais humilde dos meus irmãos, foi a mim que fizeram." - Depois ele dirá aos que estiverem à sua
esquerda: "Afastem-se de mim, vocês que estão debaixo da maldição de Deus!
Vão para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos! Pois eu estava
com fome, e vocês não me deram comida; estava com sede, e não me deram água.
Era estrangeiro, e não me receberam na sua casa; estava sem roupa, e não me
vestiram. Estava doente e na cadeia, e vocês não cuidaram de mim." - Então
eles perguntarão: "Senhor, quando foi que vimos o senhor com fome, ou com
sede, ou como estrangeiro, ou sem roupa, ou doente, ou na cadeia e não o
ajudamos?" - O Rei responderá:
"Eu afirmo a vocês que isto é verdade:
todas as vezes que vocês deixaram de ajudar uma destas pessoas mais humildes,
foi a mim que deixaram de ajudar." E Jesus terminou assim: - Portanto,
estes irão para o castigo eterno, mas os bons irão para a vida eterna.(Mateus
25:32-46)
Quem são os bons, aos olhos de
Cristo? Freqüentadores de uma religião, pessoas que não cometem erros de
qualquer espécie, isolados do mundo? Não! Bons são aqueles que socorreram os
famintos, sedentos, os estrangeiros (excluídos da nação e do critério de
irmandade judaica), os nus, os doentes e os encarcerados. Esses estarão no
Reino de Luz e os outros sofrerão o “castigo eterno”. Fica claro aqui que atitudes
amorosas tocam o coração do Senhor, pois ao fazer pelos pequeninos, pobres, humildes e
oprimidos, estamos fazendo para Ele. Jesus toma para si qualquer ação amorosa e
caridosa, qualquer socorro ao próximo. Isso não uma teoria religiosa. Salvação
é isso.
No Espiritismo evangélico é
ensinado que chegaremos a estatura de Cristo ‘adquirindo a perfeição pela prática
constante do amor, que, através de todos os séculos, em todos os
tempos, na eternidade, é a fonte e o meio de todos os progressos, dá acesso a
todas as ciências e conduz a Deus’ (J.-B. Roustaing em “Os Quatro Evangelhos”).
Tal raciocínio se coaduna perfeitamente com a essência das escrituras e com o
juízo de Deus em Mateus.
Feitas essas considerações
iniciais, quero entrar agora no tema que me inspirou esse texto e começo com “O
Livro dos Espíritos”, questão 202, onde Allan Kardec questiona os Espíritos do
Senhor da seguinte maneira:
“Quando errante (no mundo
espiritual), que prefere o Espírito: encarnar no corpo de um homem, ou no de
uma mulher? Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por
que haja de passar”.
Pouco importa! Viver como homem
ou mulher na atual existência é apenas uma questão de conveniência espiritual
dentro do quadro de provações e expiações que a pessoa, alma infinita, há de
passar no caminho do seu crescimento ou libertação-salvação.
Comentando essa questão 202,
Emmanuel, o conhecido mentor do médium Chico Xavier, assim se expressa no livro
“Vida e Sexo”:
“A homossexualidade, (...)
definindo-se, no conjunto de suas características, por tendência da criatura
para a comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo, não encontra explicação
fundamental nos estudos psicológicos que tratam do assunto em bases materialistas,
mas é perfeitamente compreensível, à luz da reencarnação. Observada a ocorrência,
mais com os preconceitos da sociedade, constituída na Terra pela maioria heterossexual,
do que com as verdades simples da vida, essa mesma ocorrência vai crescendo de
intensidade e de extensão, com o próprio desenvolvimento da Humanidade, e o
mundo vê, na atualidade, em todos os países, extensas comunidades de irmãos em
experiência dessa espécie, somando milhões de homens e mulheres, solicitando
atenção e respeito, em pé de igualdade ao respeito e à atenção devidos às criaturas
heterossexuais”.
Emmanuel aponta que ao olhar para
essa questão como “verdades simples da vida” à luz da reencarnação[1]
poderemos ter uma compreensão bem melhor e sem os pânicos e preconceitos do olhar
da maioria heterossexual do planeta. Chama a todos que vive uma orientação
sexual diversa da maioria (ou da heteronormatividade) como “irmãos” e
pede atenção, respeito e igualdade, apontando o crescimento desse fenômeno no
mundo. Segue dizendo.
“A coletividade humana aprenderá,
gradativamente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade
deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se
erguerem como agentes mais elevados de definição da dignidade humana, de vez
que a individualidade, em si, exalta a vida comunitária pelo próprio
comportamento na sustentação do bem de todos ou a deprime pelo mal que causa
com a parte que assume no jogo da delinqüência. A vida espiritual pura e
simples se rege por afinidades eletivas essenciais; no entanto, através de
milênios e milênios, o Espírito passa por fileira imensa de reencarnações, ora
em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta
o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as
criaturas”.
Aqui, o nobre mentor questiona o
conceito de normalidade imposto pela maioria social, esclarece que do ponto de
vista espiritual as ‘afinidades eletivas essenciais” são mais fortes que os
traços morfológicos, anatômicos ou corporais, posto que, ao longo das
reencarnações sucessivas, nós assumimos corpos masculinos e femininos. Tal
mecanismo traz um certo bissexualismo psíquico
inato em todos os seres humanos – tese não muito distante da analise de
Freud e Jung sobre as pulsões libidinais.
Em termos junguianos, poderíamos
afirmar que existe na sombra do ego de cada um de nós o oposto sexual, em
outras palavras, há na sombra de uma mulher um homem e existe na sombra de um
homem uma mulher, o que não se traduz necessariamente como comportamento homossexual
ou “transtorno de identidade de gênero”. No livro do analista John Sanford, “Parceiros
Invisíveis” (Paullus), podemos colher boas reflexões em torno desse assunto e
com mais profundidade.
Emmanuel diz então sobre nossas
acentuações:
“O homem e a mulher serão, desse
modo, de maneira respectiva, acentuadamente masculino ou acentuadamente
feminina, sem especificação psicológica absoluta. A face disso, a
individualidade em trânsito, da experiência feminina para a masculina ou vice versa,
ao envergar o casulo físico, demonstrará fatalmente os traços da feminilidade
em que terá estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação
masculina que o segregue, verificando-se análogo processo com referência à
mulher nas mesmas circunstâncias. Obviamente compreensível, em vista do
exposto, que o Espírito no renascimento, entre os homens, pode tomar um corpo
feminino ou masculino, não apenas atendendo-se ao imperativo de encargos
particulares em determinado setor de ação, como também no que concerne a
obrigações regenerativa”.
Emmanuel rejeita a idéia de uma identidade
sexual rígida ou uma “especificação psicológica absoluta”, pois aquilo que
chamamos de “homem” ou “mulher” são apenas acentuações psíquicas ou
espirituais. Somente as tarefas espirituais, morais e sociais que nesse mundo temos
a cumprir nos conduzem a tomar um corpo de tipo ‘A’ ou ‘B’.
Continuando, explica ainda mais esse
nobre Espírito através de Chico Xavier:
“Em muitos outros casos,
Espíritos cultos e sensíveis, aspirando a realizar tarefas específicas na
elevação de agrupamentos humanos e, conseqüentemente, na elevação de si
próprios, rogam dos Instrutores da Vida Maior que os assistem a própria internação
no campo físico, em vestimenta carnal oposta à estrutura psicológica pela qual
transitoriamente se definem”.
Contrariando muitos que ainda pensam
nos homossexuais, travestis e transexuais como pessoas essencialmente doentias,
desequilibradas, negativas ou agentes de “espíritos obsessores”, o instrutor
espiritual, um dos mais respeitados dentro do movimento espírita kardequiano,
afirma que Espíritos nobres, cultos e sensíveis (sinais evidentes de iluminação
interior) pedem aos seus instrutores (ou ‘anjos de guarda’, como os católicos
chamam) para encarnarem-se em corpos opostos a sua “estrutura psicológica transitória”.
Em outras palavras, nos corpos que não estão alinhados com a
heteronormatividade escondem-se almas nobres e iluminadas, assim como acontece
nos corpos heterossexuais, não existindo nenhum critério absoluto que diga que
uns ou outros são superiores.
Em todos os campos de orientação
sexual – sem nenhum privilégio – iremos
encontrar almas nobres, iluminadas e caridosas, como também almas inferiores, materialmente
apegadas demais e ainda cheia de vícios morais equivocados, isso sem qualquer exclusivismo.
Além do mais, essas polaridades masculinas e femininas, dentro da filosofia
espírita, serão superadas ao longo dos séculos até chegarmos ao amor
cósmico e sem fronteiras, uma alusão, talvez, aos mitos angelicais e
sua androginia.
Concluindo, o guia espiritual de
Francisco Candido Xavier nos fala da justiça divina onde não é feita nenhuma
discriminação de orientação sexual, conforme lemos em Mateus 25:
“Caminha o mundo de hoje para
mais alto entendimento dos problemas do amor e do sexo, porquanto, à frente da
vida eterna, os erros e acertos dos irmãos de qualquer procedência, nos
domínios do sexo e do amor, são analisados pelo mesmo elevado gabarito de
Justiça e Misericórdia. Isso porque todos os assuntos nessa área da evolução e
da vida se especificam na intimidade da consciência de cada um”.
Veja que esses assuntos pertencem
a “intimidade da consciência de cada um”, mas o preconceito forja verdadeiras
inquisições pós-modernas, fuxicando a vida alheia e fazendo ilações
inconvenientes e extravagantes. O constrangimento social (incluindo a
homofobia) é fruto dessa ignorância psicológica, sociológica, antropológica e
espiritual sobre o ser humano.
Como agir então diante dessas
questões que envolvem a incompreensão de uma cultura ainda cativa de uma
opressora heteronormatividade?
No livro “Endereço de Paz”, André
Luiz nos oferece um caminho de profunda moderação:
“Desafios e
problemas? Trabalhe e espere.
Ódio sobre os seus
dias? Trabalhe, estendendo o bem.
Desarmonia e
discórdia? Trabalhe pacificando.
Incompreensão e
ignorância? Trabalhe e abençoe.
Reprovação e crítica?
Trabalhe melhorando as suas tarefas”.
Paciência estratégica, ampliar o
bem no mundo (agindo), pacificar os exaltados, abençoar os ignorantes que não
compreendem e melhorar-se enquanto as críticas chovem sob o telhado existencial.
Esta é a essência de uma autêntica postura evangélica diante
da opressão e do preconceito. Tal caminho de paz pode se traduzir no conceito
de compaixão
diante daqueles que questionam toda essa “viadagem” (e que podem achar
que o meu texto é mais um sinal de “contaminação” por ela).
“Compadece-te dos
errados.
Guarda a certeza de
que Deus te permite errar
A fim de que
reconheças a tua fraqueza e imperfeição.
Nem todos os errados
possuem consciência do que fazem.
Lembra-te dos
momentos em que te desequilibras sem querer”.
(Emmanuel no livro poema
“Compaixão”)
Um dia, a humanidade – que ainda
caminha mergulhada na barbárie capitalista das guerras, desigualdades socioeconômicas,
injustiças cruéis, preconceitos etc. – compreenderá que somente o amor poderá
constituir-se na base de um novo mundo e que, desde agora, essa terapêutica
poderá nos salvar da autodestruição. Joanna de Ângelis, através da psicografia
de Divaldo Franco, chamou a isso de amorterapia que tem seu inicio no
auto-amor (sem nenhum traço narcísico).
“Amorterapia, portanto, é o
processo mediante o qual se pode contribuir conscientemente em favor de uma
sociedade mais saudável, logo, mais justa e nobre.
Essa terapia decorre do
auto-amor, quando o ser se enriquece de estima por si mesmo, descobrindo o seu
lugar de importância sob o sol da vida e, esplen¬dente de alegria reparte com
as demais pessoas o senti mento que o assinala, ampliando-o de maneira
vigoro¬sa em benefício das demais criaturas.
Enquanto as irradiações do ódio,
da suspeita, do ciúme, da inveja e da sensualidade [fixação sexista] são
portadoras de elementos nocivos, com alto teor de energias destruti¬vas, o amor
emite ondas de paz, de segurança, sustentando o ânimo alquebrado pela confiança
que transmi¬te, de bondade pelo exteriorizar do afeto, de paz em razão do
bem-estar que proporciona, de saúde como efeito da fonte de onde se origina.
Ao descobrir-se a potência da
energia do amor, faz-se possível canalizá-la terapeuticamente a benefício
próprio como do próximo.
Desaparecem, então, a competição
doentia e perversa, o domínio arbitrário e devorador do egoísmo, surgindo diferente
conduta entre os indivíduos, que se descobrirão portadores de inestimáveis
recursos de paz e de saúde, promotores do progresso e realizadores da
felicidade na Terra”. (do livro “Amor, imbatível amor”)
Usemos então tais recursos nos
embates da vida e na luta por uma nova hegemonia na sociedade, respeitando e
compreendendo tudo e todos, convivendo com a alteridade e, nos momentos
adequados, agindo na defesa da vida, do respeito e da diversidade dentro de uma
sociedade plural e radicalmente democrática.
“Porque Deus não nos tem dado
espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação”. (2 Tomíteo 1:7)
MARCIO SALES SARAIVA, 39 anos, é sociólogo,
formado em teologia básica pela PUC-Rio e mestrando em Serviço Social na UERJ.
Foi ministro leigo (ML) na Igreja Anglicana e diretor do Grêmio Espírita
Nazareno.
[1]
Ainda que você desconsidere a tese da
reencarnação, pense no amor e na graça de Deus diante de todas as suas
criaturas e que não há ninguém sem pecado na face da Terra.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
SER CRISTÃO É AMAR E REPARTIR
Um dos pontos nevrálgicos do cristianismo é seu senso de partilha, caridade e amor fraternal, pelo menos, é isso que deduzimos do Evangelho de Jesus Cristo. A Santa Ceia ou Eucaristia simboliza isso também.
"O machado já está pronto para cortar as árvores pela raiz. Toda árvore que não dá frutas boas será cortada e jogada no fogo. Então o povo perguntava: - O que devemos fazer? Ele respondia: - Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma, e quem tiver comida reparta com quem não tem".(Lucas 3:9-11)
"O machado já está pronto para cortar as árvores pela raiz. Toda árvore que não dá frutas boas será cortada e jogada no fogo. Então o povo perguntava: - O que devemos fazer? Ele respondia: - Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma, e quem tiver comida reparta com quem não tem".(Lucas 3:9-11)

Quem não frutifica na vida não serve para nada! O machado (justiça divina) irá cortar tais árvores e puni-las ("jogadas no fogo").
A recomendação de Jesus no texto lucano vai na contra-mão do hiperconsumismo capitalista. Ele pergunta: Por que tem duas túnicas? Por que tem dois carros? Dê uma túnica para quem não tem nenhuma.
Repartir! Isso faz tremer alguns que vivem para guardar, acumular, verificar o crescimento numérico de seu dinheiro nos extratos bancários. É o quanto mais, mais quero, mais tenho e mais fico possuído pelo desejo de ter.
Tem comida? Maravilha, pois a fome no Brasil e no mundo é imensa, então, reparta com aquele ou aquela que não tem nada para comer.
Cristo nos convoca para vivermos outro modelo societário onde o amor fraternal e a partilha sejam fatores mais importantes do que o lucro, o luxo e a acumulação desembestada.
Já no Antigo Testamento, Deus falava pelo profeta Isaías:
"O jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, que recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que dêem roupas aos que não têm e que nunca deixem de socorrer os seus parentes".(Isaías 58:7)
Repartir a comida (aquilo que tem), ser caridoso, amor fraternal, essa é a marca mais importante do que regras religiosas e rituais (simbolizados aqui pelo jejum, tão importante para os judeus, especialmente naquela época). Infelizmente, ainda hoje, muitos cristãos valorizam mais a aparência, os costumes, os hábitos pessoais, as orientações sexuais dos outros do que a partilha amorosa. A mensagem de Jesus ainda não foi assimilada por nós.
O apóstolo Paulo resume o cristianismo autêntico assim:
"Portanto, agora existem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor.
Porém a maior delas é o amor".(1 Coríntios 13:13)
domingo, 13 de novembro de 2011
ESTEJAMOS PREPARADOS PARA UM NOVO TEMPO
O texto de Mateus 25:1-13 nos chama atenção para um dado da
fé e da história. Não sabemos o dia nem a hora da chegada do Reino de Deus e
Sua justiça. O mal, a dor, a morte e a exploração serão banidos e instaurará
uma nova ordem societária com paz, justiça, igualdade, respeito-cuidado com a
Natureza (obra do Criador) e prosperidade. "Um novo céu, nova Terra" como nos promete as revelações do livro do Apocalipse.
(Em algumas traduções das Escrituras encontramos a expressão
“reino dos céus” que quer dizer o mesmo, mas corre-se o risco de uma
interpretação muito espiritualizante (para o “além” dessa vida),
transcedentalista e deslocada da existência concreta das pessoas)
Quem é prudente e sensato busca armazenar o óleo-azeite, a
anergia da vida que nos mantém de pé, firmes, com fé e esperançosos, pois, a
qualquer momento, a história pode mudar os rumos e precisamos estar atentos a
dialética da vida, aos sinais desse Reino de Cristo.
Insensatos ou sem juízo são os que, distantes dos valores do
Reino, permanecem no processo de exploração, alienação, coisificação da vida
humana, consumismo doentio, hedonismo e egoísmo. Acumulam riquezas que as
traças corroem e não tesouros espirituais, valores e compromisso ético-social.
A narrativa de Mateus é assim:
«Naquele dia, o Reino do Céu será como dez virgens que
pegaram suas lâmpadas de óleo, e saíram ao encontro do noivo. 2 Cinco delas não
tinham juízo, e as outras cinco eram prudentes. 3 Aquelas sem juízo pegaram
suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4 As prudentes, porém, levaram
vasilhas com óleo, junto com as lâmpadas. 5 O noivo estava demorando, e todas
elas acabaram cochilando e dormiram. 6 No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O
noivo está chegando. Saiam ao seu encontro’. 7 Então as dez virgens se
levantaram, e prepararam as lâmpadas. 8 Aquelas que eram sem juízo disseram às
prudentes: ‘Dêem um pouco de óleo para nós, porque nossas lâmpadas estão se
apagando’. 9 As prudentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode
faltar para nós e para vocês. É melhor vocês irem aos vendedores e comprar’. 10
Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas
entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. 11 Por fim, chegaram
também as outras virgens, e disseram: ‘Senhor, Senhor, abre a porta para nós’. 12
Ele, porém, respondeu: ‘Eu garanto a vocês que não as conheço’. 13 Portanto, fiquem
vigiando, pois vocês não sabem qual será o dia, nem a hora.»
Jesus, com essa parábola, aponta para a nossa responsabilidade
cristã. Aqui não temos como nos omitir, enfiar a cabeça na areia para não ver a
realidade das coisas e nem ficarmos amparados nos outros. Ou tomamos o caminho
da libertação, que envolve ação e espera do Reino (a dialética do Reino é essa,
aqui e ainda não); ou então somos negligentes – cochilamos e dormimos – diante de
uma realidade que clama por compromissos claros e que pode se romper em
novidade “no meio da noite”.
A justiça de Deus nos diz que os negligentes, omissos e
compromissados com o modelo societário do anti-Reino de Deus (algumas passagens chama de "reino de satanás") não serão
reconhecidos como seguidores do Cristo Libertador, mesmo que clamem “Senhor! Senhor!” ou O reconheçam formalmente,
andem com Bíblias no suvaco, frequentem cultos ou missas (práticas da piedade).
Sem
vigilância, compromisso e ação libertadora, não há Cristianismo do Cristo, mas
uma religiosidade alienada, individualista, burguesa, acomodada a ordem social
diabólica do lucro e da devastação (o “ mundo” como as Escrituras chamam) e esse
tipo de religiosidade nos deixam as portas do Reino fechadas.
Sejamos cristãos atentos e compromissados. Orando e
caminhando no rumo da libertação e do Reino de nosso Senhor Jesus Cristo.
Salvação não é um escape individualista burguês do inferno,
mas um compromisso com o e como Povo de Deus no caminho da vida e da autêntica
liberdade. A salvação é um projeto coletivo de Deus e Seu povo é bem maior do
que os muros eclesiásticos que estamos acostumados a entender como instituição
hierárquica chamada igreja.
A minha oração é: Senhor Deus, que eu possa ser um agente
nesse mundo para que Teu Reino venha e possamos viver uma nova era de justiça,
paz e amor entre os seres humanos. Aviva Senhor a minha fé e que Teu Espírito
nos conduza como povo Teu nesse caminho de êxodo-libertação, não nos permitindo
cochilos diante da realidade que clama por transformação. Em nome de Jesus, amém!
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