segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia de Ogum, dia de são Jorge

A Umbanda é um religião brasileiríssima e surgiu no início do século 20 sincretizando elementos católicos com doutrinas esotéricas, espírita-kardecistas, pajelança/xamanismo brasileiro, cultos africanistas e magia cerimonial.


Na Umbanda se aprende a conviver com Jesus Cristo, o centro de todo o culto e altar, assim também com os santos católicos, índios (caboclos), os negros (pretos-velhos), o povo de rua (exus, malandros, etc.), os espíritos de luz (influências do kardecismo), os povos do Oriente, enfim, com toda a comunidade sócio-espiritual, sem exclusões. É a "unidade na diversidade" que muitos falam, mas poucos praticam.


O feriado de hoje, na cidade do Rio de Janeiro, tem um elemento simbólico interessantíssimo. Ele marca a unidade prática entre cristãos católicos, protestantes (que admiram o mártir Jorge como um dos que tombaram na defesa da fé) e religiões afro-brasileiras que identificaram na história do "santo guerreiro" uma associação com o seu orixá Ogum.


Penso que Jesus Cristo - ou o "Pai Oxalá" como é chamado na Umbanda e no Candomblé - deve estar feliz vendo Seu povo cantando, rezando, louvando e seguindo exemplos de luta e fé, de amor à causa do bem e resistência diante dos poderosos.


O exclusivismo soteriológico cristão ainda é muito forte. A ideia de que não existe "salvação" fora dos muros eclesiásticos ou fora da fé em Cristo - conforme interpretação dada pela ortodoxia - é uma questão de grande apelo nas massas evangélicas e em amplos setores católicos mais conservadores, por outro lado, sabemos que o Espírito divino sopra onde quer (S. João 3:8) e o Reino de Deus é inclusivo (cf. S. Mateus 25). O seu único critério de exclusão é a falta de amor, a ausência de caridade.


Chega de fundamentalismos biblicistas e guerras "em nome da fé". Oro, como Jesus orou, "para que todos sejam um, Pai, como Tu estás em mim e eu em ti" (S. João 17:21). 


Vamos com isso dar uma chance para paz e a convivência, dando glórias a Deus pela vida de s. Jorge e dançando com Ogum (quem sabe, um dos anjos do Senhor!) para que nos proteja de todas as flechas dos nossos adversários, especialmente, dos nossos "demônios internos".

quarta-feira, 11 de abril de 2012

VAMOS EXECUTAR ESSES BOIOLAS

Moisés Malacaia era um pastor "da antiga", evangélico "de berço", daquele tempo em que eram chamados de "bíblias". Tinha modos severos, terno e gravata, contra o mundanismo da TV e do rádio, rústico com as mulheres moderninhas da sua Igreja Pentecostal da Verdade de Deus escondida em Grão-Pará, nos cafundós do Rio de Janeiro.

Era um líder nato. Sua fala era cheia de gestos cinematográficos, expressões faciais teatralizadas, mas sempre objetiva, sem meias palavras e nem um pouco preocupada com o senso comum do que se convencionou a chamar de "politicamente correto". Costumava sempre repetir:

"Prego simplesmente a Palavra de Deus, nem mais, nem menos. Não gosto de teologias e nem interpretações. A modernidade está destruindo nossas igrejas e enfraquecendo a força moral do nosso povo eleito".

Chovia "glória a Deus", "aleluia", "é verdade", "o Senhor é contigo". O pastor Malacaia sorria, suavemente, sem parecer soberbo, um simples entortar de boca feliz como quem cumpre uma missão divina. Sentia-se membro de uma espécie de "Bope do Senhor Jesus" e a Bíblia era seu fuzil.

Era um domingo de fevereiro e a igreja estava vazia. Não se sabia se os fiéis amoleceram na cama com o calor - será que se entregaram aos prazeres da carne com todo esse suor de verão? - ou foram seduzidos pelas brisas demoníacas das praias cariocas. Poucas pessoas compareceram no culto das 10 horas. 

O pastor, com ares indignados contra esse relaxamento espiritual, exortou em seu sermão sobre a necessidade de fidelidade à Casa do Senhor e disciplina dos discípulos nesses "tempos de perdição". Começou a escrachar todas as formas de libertinagem do mundo que "jaz no maligno" e, especialmente, sentiu-se inspirado a falar sobre um texto que, disse ele, houvera sido "soprado pelo Espírito Santo":

"Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte" (Levítico 20:13)

Inflamou-se! Escancarou a garganta e com punhos cerrados vociferou, defendendo a morte de todos os homossexuais como um bem, um processo de expurgo social que Deus mesmo deseja. Nenhum cristão poderia admitir que tais pessoas pudessem participar de suas santas assembleias, mesmo na vida social, Deus pede a execução desses "boiolas".

Um jovem, aparentando uns 20 anos de idade e muito retraído, até então, ainda que temeroso, decidiu abrir a boca, interrompendo ousadamente o sermão do santo homem de Deus que caminhava para um desfecho apocalíptico, cheios de "aleluias".

"Pastor Malacaia, mas Levítico 20:9 diz que se eu amaldiçoar meu pai ou minha mãe devo ser executado. Se meu pai for gay, eu devo amaldiçoá-lo e executá-lo ou ele antes deve fazer isso por eu tê-lo amaldiçoado? Deus estaria ao lado de quem nesse caso?"

O pastor Moisés ficou confuso por alguns segundos, mas não se deixou abalar. 

"Claro que Deus perdoa, se você realmente é um cristão que se arrepende de ter amaldiçoado seu pai ou sua mãe. Eu te conheço, você mesmo não faria isso".

O jovem, ainda insatisfeito, questionou mais uma vez:

"Pastor, no mesmo Levítico 20:15-16 diz que relações com animais merecem execução. Devo seguir tudo que está escrito em Levítico e na Torá? Eu já ouvi dizer que algumas pessoas de nossa igreja...."

"Cale-se", disse o pastor já nervoso, "quer saber mais de teologia do que eu?"

"O senhor disse que não gosta de teologias e prega a Palavra pura de Deus, eu apenas estou querendo entender e obedecer".

Malacaia, aturdido, se endireitou no púlpito, folheou sua Bíblia, sorriu para assembléia pequenina e disse:

"Esse amado membro está confuso. Lembro a ele que o Senhor abomina relações homossexuais não somente em Levítico 20, mas também em Deuteronômio 23:17, em 1Timóteo 1:10 e 1Coríntios 6:9. A Bíblia estaria errada meu jovem?"

O garoto corou-se, mas reuniu forças e perguntou ainda mais:

"Até onde pude compreender, Deuterônomio 23:17 é contra a prostituição sagrada dos pagãos e os textos paulinos condenam a imoralidade sexual, não necessariamente a homossexualidade. A sodomia, no original grego, pode ser entendida...."

"Chega moleque! Eu sou o pastor, eu sou!"

Com leve trêmulo sorriso o jovem disse:

"Eu sou não é o nome de Deus nas Escrituras?"

"Saia daqui, se não...."

O jovem olhou fundo nos olhos do pastor e confessou de pé:

"Perdoe-me papai, mas eu sou gay, o senhor sabe disso. Creio que o amor de Deus é maior e nada poderá me separar de Cristo. Se quiser, pode me executar, aliás, sua convivência vem me executando aos poucos. Quem sabe meu sangue não possa aplacar de uma vez sua ira ou satisfazer sua fé num Deus estranho e sem misericórdia".

O pastor desmaiou e foi amparado pelos obreiros:

"Água, tragam água...."

A pequena assembléia ficou chocada. Como pode? O filho do pastor? Uma senhora disse, com ares de quem tudo sabe:

"Bem que eu sempre achei ele muito afeminado, aquela mania de cantar Aline Barros nunca me enganou".

O jovem levantou-se, manteve-se de cabeça baixa e retirou-se da igreja para lá nunca mais voltar. Seu pai, o pastor Moisés Malacaia, chorou, assim como Jesus no Horto das Oliveiras. Depois disso, nunca mais foi o mesmo. Começou a beber demais, jogar carteado pelos bares da Baixada Fluminense e abandonou os púlpitos. Deixou a mulher e seus seis filhos. Foi encontrado, pela última vez, entre os braços de uma travesti da Lapa, bêbado, sussurrando: 

"Senhor, tem misericórdia de mim, pecador".


segunda-feira, 9 de abril de 2012

O NOSSO AMOR


Gi

(Escrituras Sagradas)
Cântico dos Cânticos, 4: 1-16

"Como és formosa, minha amada, como és formosa: teus olhos são como os das pombas através do teu véu; teus cabelos, como um rebanho de cabras que vêm descendo dos montes de Galaad; teus dentes, como um rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do lavadouro: todas com filhotes gêmeos, nenhuma estéril entre elas.

Teus lábios são como uma fita escarlate e tua fala é doce; como a metade da romã, assim as tuas faces através do teu véu.

Teu pescoço é como a torre de Davi edificada com baluartes; dela pendem mil escudos, toda a armadura dos heróis.

Teus dois seios são como dois filhotes, gêmeos de uma gazela, pastando entre os lírios.

Enquanto não surge o dia e não fogem as sombras, vou ao monte da mirra e à colina do incenso.

És toda formosa, ó minha amada, e não há mancha em ti.

Vem do Líbano, minha esposa, vem do Líbano e entra; olha do cume do Amaná, dos cimos do Sanir e do Hermon, das cavernas dos leões e das montanhas dos leopardos.

Feriste meu coração, ó minha irmã e esposa, feriste meu coração com um só dos teus olhares, com uma só das jóias do teu colar!

Como são belos os teus amores, ó minha irmã e esposa, melhores, os teus amores, do que o vinho, e o odor dos teus perfumes supera todos os aromas.

Teus lábios, minha esposa, são favo que distila o mel; sob a tua língua há mel e leite, e o perfume de tuas vestes é como o perfume do Líbano.

És um jardim fechado, minha irmã e esposa, jardim fechado e fonte lacrada; teus rebentos são um jardim de romãs com frutos excelentes, de alfena com nardo, nardo e açafrão, canela e cinamomo, com todas as árvores de incenso, mirra e aloés, com todos os melhores bálsamos.

A fonte dos jardins é como um manancial de água corrente que flui do Líbano com ímpeto.

Desperta, vento do norte e vem, vento do sul: soprai no meu jardim, para que se difundam os seus aromas".

Palavras do Senhor, demos Graças a Deus!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

PACIÊNCIA E DOÇURA, O CAMINHO DA CRUZ


"Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado. Os soldados conduziram-no ao interior do pátio, isto é, ao pretório, onde convocaram toda a coorte.Vestiram Jesus de púrpura, teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na sua cabeça.E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus! Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo. Depois de terem escarnecido dele, tiraram-lhe a púrpura, deram-lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar". (São Marcos 15:15-20)

Sempre ensinamento e exemplo dados aos homens. Nos ultrajes que Jesus suportou, na paciência e na resignação com que tudo sofreu se vos depara a linha de proceder que deveis seguir.

Não vos enfileireis nunca entre os que acusam e insultam, qualquer que seja a aparência de direito que tenham para assim fazer, porquanto podeis estar cegos e acusar e insultar a um inocente. Fracos são os sentidos humanos e vos enganam muitas vezes. Este, que vos parece culpado e o é para os homens, pode ser justo aos olhos de Deus. Abstende-vos, pois, visto que, na maioria dos casos, por demais fracos são os vossos sentidos e obtusa a vossa inteligência para julgardes com acerto.

Se vos virdes alvo da zombaria, do escárnio dos vossos irmãos, por mais injustas que sejam suas opiniões e seus atos a vosso respeito, oponde-lhes sempre a paciência e a doçura.

Não vos esforceis por demonstrar aos cegos os princípios e as propriedades da luz. Perdereis o vosso tempo.

Firmai-vos na pureza das vossas intenções, na pureza da vossa consciência e dos vossos atos e ficai certos de que tereis sempre no Senhor um juiz equânime.

(ROUSTAING, J.-B. "Os Quatro Evangelhos", FEB, Rio de Janeiro)

Comentário: Não é nada fácil retermos nossa língua, nossos julgamentos apressados e responder com paciência e doçura à zombaria e o escárnio de alguns, de muitos ou da sociedade. Contamos com a ajuda d'Ele nesse sentido.

As diversas correntes da tradição cristã falam: "creia em Jesus e serás salvo". Sim, mas a maior prova de crer é viver como Jesus viveu!

Precisamos resgatar nesses últimos tempos a imitação de Cristo, o Seu exemplo como balizador das nossas ações nesse mundo. Tal é o desafio existencial que temos pela frente.

Tenham tod@s uma ótima e reflexiva Sexta-feira da Paixão.
Paz e Bem!
MARCIO S. SARAIVA

segunda-feira, 12 de março de 2012

QUAL É A SUA RELIGIÃO?




Minha fonte de inspiração teológica
Faz pouco tempo que, numa entrevista para vaga de professor num colégio do Rio de Janeiro me deparei com essa pergunta cortante e direta: “Qual é sua religião?”.

Fiquei desconcertado. As palavras me faltaram. Gaguejei e tentei pensar rapidamente em como responder com segurança algo que para mim é complexo. Creio que fui tão estabanado que esse deve ter sido um dos motivos que a coordenadora não me chamou mais, ainda que elogiasse o meu currículo.

Começo sempre dizendo que sou cristão, mas até aí, sei que é muito relativo. Muitos se dizem cristãos. Os católicos, os ortodoxos, os protestantes, os pentecostais e sua variante neopentecostal (a teologia da prosperidade me parece um desvio diabólico, mas procuro respeitar aqueles e aquelas que seguem esse rumo). Alguns esotéricos e os kardecistas também se colocam como cristãos, pois todos esses reivindicam o Novo Testamento de Jesus Cristo como base de sua fé pessoal-comunitária.

Estudei teologia básica na PUC-Rio durante dois anos e lá aprendi demais com os teólogos católicos a admirar a beleza e as reflexões da velha e tradicional Igreja de Roma, isso no momento em que minha vida religiosa já tinha alguns anos de vínculo com a tradição e a teologia liberal da Igreja Anglicana e, depois, na pequena e querida Igreja Presbiteriana de Guadalupe dirigida pelo reverendo Carlos Antônio, homem de Deus e de uma simplicidade encantadora.

Antes disso, na época ainda de estudante, eu militava na Pastoral Universitária da UERJ e na ABU (Aliança Bíblica Universitária) e lá aprendi muito com os meus irmãos metodistas, em especial, o pastor Marcos Gomes Torres, a importância do engajamento de fé e saboreava as comidas da Igreja Católica local que era ofertada aos membros da PU, uma delícia. O pastor Marcos, um teólogo protestante da libertação, chamou-me a atenção para o fato de que crer é agir no Espírito de Cristo, sem firulas e nem teorizações excessivas. Nessa mesma época, Leonardo Boff era o professor de Filosofia da Religião na instituição. Em 1985, conheci a Igreja Metodista de Vila Isabel.

Igreja Presbiteriana Unida
Durante algum tempo, ajudei no Conselho de Pastores da Igreja Presbiteriana Bethesda em Copacabana, filiada a IPU (Igreja Presbiteriana Unida), e aprendi com meu querido reverendo Nehemias Marien, hoje lá no andar de cima, que kardecismo e cristianismo podem conviver de forma harmoniosa, sem perseguições e nem mútua acusações. As pregações e conversas particulares com Nehemias me trouxeram enormes meditações sobre o sentido último de nossa existência. A equipe se completava com os reverendos Jonas Rezende e Rubens Pires, eu me sentia uma anão espiritual perto desses homens.

Ainda na minha adolescência, cresci numa família de catolicismo sincrético e conheci alguns centros kardecistas e pessoas verdadeiramente dedicadas ao processo de santificação com Cristo (eles chamam de “reforma íntima”). Esses exemplos me deixaram marcas profundas de respeito e admiração pela filosofia espírita e por aquilo que ela traz para a vida de muitas pessoas: consolo, paz interior e mudanças de atitudes. Em especial, destaco o "Grêmio Espírita Nazareno" e o "Centro Espírita Deus, Luz e Verdade".

Dancei nas giras de Umbanda e percebi o quanto esse povo sofre um preconceito estúpido. Quanta gente de bem e devotada ao próximo lá conheci. Não esquecerei jamais dos “Caminheiros de Oxalá” e da FEPAL, nem das orientações do livro “Umbanda cristã e brasileira”.

Na infância, invejava a família de Dona Maria (chamávamos de Tia Maria de Quintino). Era uma casa adventista, no Morro da Caixa d’Água, que seguia com rigor e muito amor os preceitos que me faziam desejar no futuro uma família assim também. Ela me mostrou que é possível criar uma família honrada e com fé, mesmo num contexto de degradação social, econômica e cultural. Seus filhos e filhas são hoje pessoas de bem, nenhum se tornou bandido ou traficante.

Qual é a minha religião?

Sei hoje que o amor e o bem não têm fronteiras pessoais e nem religiosas. Conheci “santos” e canalhas em todas essas religiões.

Estudar e orar com a Bíblia, uma benção!
Tenho em Jesus Cristo meu Senhor, Salvador e Mestre e pela Bíblia uma paixão sem igual. Nesse sentido, sou muito cristocêntrico, mas sem fanatismo ou bibliolatria superficial. Identifico-me mais com o “princípio protestante” de livre exame das Escrituras do que com a rigidez dogmática católica e excessos de imagens, o que não me impede de apreciar a excelência de muitos dos seus teólogos e nem de orar em seus belíssimos templos. Vez por outra, participo de uma missa, sem constrangimentos, e sinto Deus ali presente. A liturgia cuidadosa, suas velas e o cheiro do incenso queimando me fascinam.

Sou avesso ao fanatismo, ao fundamentalismo e ao biblicismo cego que infestou muitas igrejas de raiz protestante no Brasil e sinto-me incomodado demais com isso, pois vejo beleza nas mensagens de outras religiões, sinto elementos de grande verdade em textos de Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco e José Raul Teixeira – para citar três grandes expoentes da literatura espírita kardecista – sem com isso dizer “amém” para todas as linhas que os mesmos escrevem ou escreveram.

Chico Xavier, líder do espiritismo brasileiro
A liturgia tradicional das igrejas protestantes me encantam. Seus belíssimos hinos – sem gritarias emocionais! – com sólidas e profundas reflexões bíblicas (na linha de Calvino, Barth e Tillich, para citar alguns), sem idolatrias ou “papas”, deixam-me em grande paz e favorece minha comunhão com o sagrado, meu êxtase espiritual, sem jamais negar que há outras maneiras de experienciar esse mesmo sagrado, pois o espírito do Senhor é livre e sopra onde quer.

Não posso me dizer católico e nem ortodoxo, ainda que eu aprecie muitas obras de autores dessas igrejas e sua maravilhosa tradição contemplativa. Também sinto paz em muitos textos espíritas kardecistas, mas minha teologia estaria mais próxima do protestantismo de um Karl Barth e Paul Tillich do que do positivismo racionalista evolucionista de Allan Kardec, ainda que eu tenha no Espiritismo um grande referencial, especialmente na linha desenvolvida por J.-B. Roustaing, Pietro Ubaldi e Carlos Torres Pastorino.

Tenho horror ao neopuritanismo e sua ênfase numa santidade de fachada, exterior, comportamental apenas, sem valorizar a experiência de Deus no coração humano. Parece, em muitas denominações atuais – especialmente pentecostais e neopentecostais – que ser cristão é apenas não usar bebidas alcoólicas, não fumar, ser heterossexual e evitar sexo fora da instituição do casamento. Um budista pode fazer isso melhor e ainda assim não será cristão. Além do mais, a salvação nas Escrituras é obra da graça de Deus e da fé ou seria simplesmente um conjunto de obras humanas que “conquistam” os favores de Deus?

Não defendo nenhum sincretismo. “Cada macaco no seu galho” diz o ditado popular. Penso sim que o pluralismo religioso é um valor democrático saudável demais. Aprendi a respeitar as diferenças e conviver com elas, retendo tudo que for bom.
Igreja Anglicana
Um grande amigo me disse: “você continua pensando como um bom anglicano”. Pode até ser. Realmente, essa flexibilidade mental e teológica é bem a marca dos anglicanos do século 21. O fato é que busco sempre caminhar com todos os meus irmãos de humanidade, crescendo cada dia mais como ser humano e compreendendo que todos nós somos sempre falhos e pecadores, carentes do amor e do perdão divinos.
A minha teologia pode ser inconsistente e heterodoxa para muitos que conheço (uma teologia fechada e amarradinha sempre tem descambado em autoritarismo e agressividade), mas ela está aberta para o novo, para o amor e para as boas novas do Reino de Deus. Não preciso excluir e nem desmerecer outros caminhos de fé para demonstrar a beleza do Cristo e do seu Evangelho de amor e graça. Com isso, sinto a presença do Espírito Santo - ou dos Espíritos de Luz, Anjos do Senhor - em diversos momentos de minha vida.

Assumo minha inconsistência, minhas dúvidas, o quanto eu sou débil em questões de fé. Conto apenas com a misericórdia de Deus e com Seu Espírito para me direcionar dentro do amor, do perdão e da caridade. Prefiro ser assim a “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Pessoas chatas sabem tudo, ou melhor, pensam que sabem. A maioria das igrejas de hoje estão cheias de pessoas chatas. Onde eu poderia congregar com meus irmãos e minhas irmãs?


Vou caminhando, como pastor errante e sem ovelhas, nos braços de nosso bondoso Deus.